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Meu irmão foi vítima de racismo
Data:23/11/2018 - Hora:09h35

Sou professor do Curso de Direito da Universidade do Estado de Mato Grosso, campus universitário de Cáceres já há cinco anos, e durante este percurso, com muito entusiasmo e paixão, muitas foram as aulas, as palestras e os projetos que desenvolvi e participei falando (e ouvindo bastante) sobre diversidade, cultura, direitos humanos, dignidade humana, representatividades das minorias e cidadania.

Assuntos e abordagens que, para mim, e sei que para muitos de meus colegas e estudantes com os quais tive a oportunidade de dialogar e trocar figurinhas ao longo destes anos, sempre fizeram muito sentido. E tanto fizeram, que cheguei a pensar, talvez por ingenuidade, talvez por um sonho utópico de militante, que estaria de algum modo imune ou mesmo muito distante da possibilidade de experienciar – seja comigo, seja com alguém de minha família, seja com os amigos ou conhecidos –, uma situação de violação à dignidade. Ledo engano. E que engano! Pois é, meu irmão foi vítima de racismo. E o mais curioso, não sei se por coincidência, ou por ironia do destino, justo na véspera do dia da consciência negra.

Passemos ao caso.

Nesta segunda-feira, 19 de novembro de 2018, meu irmão e minha mãe foram à agência da Caixa Econômica Federal, na Praça Barão do Rio Branco, para realizar algumas operações bancárias corriqueiras. Chegando lá, após pegarem a senha de atendimento, dirigiram-se às poltronas de modo a aguardarem a chamada. Minha mãe se sentou e meu irmão, no intuito de ficar próximo a ela, pediu licença a uma senhora que além de sua poltrona ocupava uma outra com a sua bolsa.

De forma abrupta e extremamente grosseira, a senhora não apenas se negou a retirar a bolsa, dizendo em alto e bom som que lá ficaria, como também o chamou, por várias vezes, com muito desprezo, de macaco.

Indignado, muito nervoso, diante daquela absurda reação, não acreditando no que estava ouvindo, meu irmão começou a comentar com a minha mãe e com os outros clientes que estavam ao redor sobre as palavras ofensivas proferidas por aquela senhora. Repetindo-as para si e para os outros, tentando entender a ira descarregada contra ele.

O segurança somente assistia ao desenrolar dos fatos, e em momento algum se aproximou para tentar apaziguar ou resolver a celeuma. Segundo relatos, ele inclusive estava rindo discretamente do acontecido. Até que uma funcionária do próprio banco, pegando no ar o barulho, sem ao menos se preocupar em apurar o que estava se passando, apontou o dedo ao meu irmão e à minha mãe, ordenando que saíssem do recinto, como se eles tivessem dado causa ao tumulto no ambiente. Em defesa deles, os outros clientes se manifestaram, afirmando que quem havia dado causa ao tumulto havia sido a tal senhora e que ela, há alguns minutos antes, havia se comportado de forma semelhante com outra pessoa.

Nessa narrativa, há detalhes que são lamentáveis. O primeiro, que não cheguei a compartilhar, diz respeito a uma característica da própria senhora que proferiu as ofensas, ela é negra, assim como meu irmão. E digo que é lamentável, porque ela mesma, com a sua declaração, estava passando adiante [reproduzindo] um comportamento odioso, que já oprimiu e silenciou historicamente milhões e milhões de pessoas no Brasil [e que, infelizmente, não cessou, continua]. E o segundo, diz respeito ao despreparo da atendente e os desdobramentos de sua atitude, que – ao apontar, sem tardar, um suposto culpado ao que estava acontecendo, a partir do que não sabia, do que não estava acompanhando, sem se importar sequer com os esclarecimentos dados pelos outros clientes sobre o episódio – direta ou indiretamente, acabou por reforçar os preconceitos que já estavam circulando pelo local.

É, o racismo está aí. Presente. E como está presente! E está, não porque eu desejo que esteja, a fim de ter pauta para escrever a respeito ou para, oportunisticamente, me projetar sobre a desgraça alheia, como alguns preferem argumentar por aí ao invés de se debruçarem com sensibilidade sobre a questão. Não, definitivamente, não. Assim me manifesto, pois não são poucos os casos de pessoas que, diariamente, precisam lidar, com muita resistência, com o preconceito, a violência, a agressão, o desrespeito, as piadas de mal gosto, o olhar desconfiado e o menosprezo gratuitos, simplesmente por serem aquilo que são: negros.

Como superar eventos como esses? A despeito de um conjunto de políticas públicas, o que ainda nos falta enquanto sociedade? Empatia? Alteridade? Senso comunitário mais aguçado? Por que é tão difícil nos

colocarmos no lugar do outro? Ou ao menos, compreendermos o diferente em sua inteireza? “Mimimi”? Será? Não. Justiça!

José Ricardo Menacho, Professor do Curso de Direito da Unemat/Cáceres e escritor.




fonte: José Ricardo Menacho



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