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Moço, me vê aí um baguncinha!
Data:21/02/2018 - Hora:09h15
Moço, me vê aí um baguncinha!
Arquivo Pessoal

[...] O ponto de encontro já estava definido. Trocaríamos figurinhas no local onde sempre nos reuníamos. Seria lá, como costumava ser, não só porque ficava na metade do caminho da casa de cada um, mas também porque era o único lugar corajoso o bastante, pensando nos poucos caraminguás que dispúnhamos, capaz de não sair correndo diante da escassez de nossos bolsos (quase furados). Ao final dos trabalhos, fechando o balanço, economizávamos então sola de sapato (pela proximidade) e nossas moedinhas (pelos preços mais acessíveis do cardápio). Para aqueles que queriam comparecer, mas moravam um pouquinho longe, bastava dar um grito que uma abençoada carona já aparecia – e digo abençoada, não por questões sobrenaturais, talvez até tenham suas influências, vai saber, mas porque o condutor da rodada não cobrava vintém algum pela corrida, tampouco dava indiretas sobre a alta dos preços da gasolina.

Quando nos encontrávamos, falávamos de tudo. De nós e dos outros. Da escola e da faculdade. Dos nossos sonhos e da imaginação que nos provocava. Nada escapava. Também, não havia como ser de outra forma, com tantos olhos e ouvidos cuidando dos mesmos assuntos, nenhum detalhe saia ileso. Logo que chegávamos ao recinto, formávamos um mesão daqueles, bem comprido, que até dava volta – éramos como caititu, só andávamos em bando. À vontade, por cima de um calçadão ao ar livre ou distribuídos pelas beiradas de uma praça, em meio à fumaça que saía da chapa e ao som de uma TV ao fundo, que com freqüência estava bufando algum capítulo de novela, ríamos para nós e para as estrelas, e o melhor de tudo, enquanto tomávamos uma Simba 2L e aguardávamos os nossos pedidos, captávamos, com as parabólicas bem ajustadas, as tendências e as novidades ditadas por aqueles que estivessem transitando pelas redondezas ou por aqueles que estivessem confabulando na mesa ao lado. O local já estava definido. Seguindo a tradição, a conversa com os amigos seria no baguncinha.

***

Para quem não conhece, nem de nome, nem de cheiro, baguncinha não significa uma pequena bagunça, uma confusão desmilinguida ou um rebuliço sem pedigree, como pode parecer numa primeira leitura. Baguncinha, para os que não vivem pelas bandas do município de Cáceres, região e adjacentes, indica tanto um estabelecimento onde se preparam e se saboreiam lanches, quanto um tipo específico de lanche. Não é à toa que ouvimos por aqui: “bora ao baguncinha” ou “bora comer um baguncinha”. Não sei identificar muito bem a data do seu surgimento, mas já faz um bom tempo. Eu era pequeno quando a moda chegou, final da década de 90 provavelmente. Não sei também identificar quem foi o pioneiro ou a pioneira na venda dessa iguaria, até porque, às vezes tenho a impressão de que todos foram surgindo na mesma hora, brotando em cada canto. É isso mesmo, do nada, juro, foram se esparramando. Alguns em carrinhos improvisados, outros em trailers mais elaborados, comportando um ou mais chapeiros, e outros ainda tendo a garagem ou a varanda de uma casa como sua sede.

Devo ser sincero, reconheço que alguns torcerão o bico para o que eu afirmarei, no entanto, se antes ainda pairava alguma nuvem de dúvida sobre a minha cabeça, hoje não paira mais, critiquem e desprezem o quanto quiserem, se condoam o quanto for preciso para passar o amargor da notícia: o baguncinha também é parte constituinte de nossa identidade. Um elemento recente, comparado com tantos outros que nos referenciam, obviamente, mas um elemento, e não menos importante por conta disso.

O baguncinha, para além de uma experiência gastronômica, diz muito sobre nós, sobre os nossos costumes, sobre o modo como ocupamos (ou tentamos ocupar) os recônditos e áreas públicas da cidade e, principalmente, sem bairrismos de minha parte ou qualquer espécie de “ufanismo regional”, diz muito sobre o apreço que temos por entrelaçar nossas rotinas com o que (e com quem) faz parte da rua.

Sim, a rua, essa mesma de todos os dias que, não sei se em razão do calor, ou de gostarmos em geral de confraternizações a céu aberto, ou de querermos dar uma variada de vez em quando no ambiente e na dieta, ou por qualquer outra razão que não me ocorre agora, não passa silenciosa ou discreta, ao contrário, tem muito a compartilhar e, curiosamente, a revelar sobre os nossos encantos e desencantos na cidade. E ó, o que defendo aqui não tem nada a ver com a “pira” de compreender o baguncinha como integrante de uma cultura marginal em contraposição ao que

se entende como sendo uma cultura erudita, mais apropriada. Simplesmente é. Mesmo que ignorem ou façam piada, o baguncinha é um elemento constituinte da nossa identidade.

E ainda assim, se for o caso de refletirmos a respeito da situação do baguncinha no campo cultural ou no campo histórico, vá lá, – onde estaria alocado, à qual categoria teórica se vincularia ou como seria classificado em termos, digamos, um pouco mais acadêmicos – ouso me manifestar, por minha conta e risco, que o baguncinha (tanto o estabelecimento, quanto o lanche) é um despretensioso símbolo popular, que inspira uma possível contracultura, que inspira, portanto, sem exageros, um levante (ainda que tímido) contra a lógica, nada democrática, de distribuição, de uso e de fruição de nosso espaço urbano. Estendendo um tiquinho só essa questão, eu ainda acrescentaria que, direta ou indiretamente, o baguncinha, mesmo que se trate de um comércio, da compra e venda de lanches – e que conste em ata que não nego essas características, tampouco entendo que sejam características que desabonem as ideias que me propus a desenvolver neste texto – promove círculos coletivos de convivência e interação mais acessíveis, abertos, sem muros, tendo, repito e destaco, a rua como pano de fundo e fundamento.

Está aí, o baguncinha tem nome, sobrenome, história, lenço, documento e passaporte. E ele fala muito de nós e muito sobre nós. E como fala! Por que negar os fatos?

***

Fui um dos primeiros a aparecer no baguncinha naquela noite, fui a pé mesmo. Felizmente, a turma não tardou a chegar, ainda bem, porque eu estava azul de fome.

-Moço, me vê aí um baguncinha! ***___José Ricardo Menacho, Professor do Curso de Direito da Unemat/Cáceres




fonte: _José Ricardo Menacho



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