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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
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JUBA
Para novos amanheceres aqui ou acolá [TERCEIRO ATO]
Data:23/08/2017 - Hora:08h28
Para novos amanheceres aqui ou acolá [TERCEIRO ATO]
Arquivo Pessoal

[...] Antes sentávamos à porta, conversávamos até de madrugada. As crianças brincavam na rua, enquanto os adultos recapitulavam o que haviam feito durante o dia e planejavam o que fariam no dia seguinte. Mas era só mesmo até o dia seguinte, viu?! O planejamento não era tão prolongado. Não sofríamos antecipadamente. A novela terminava, o povo pegava sua cadeira e se arranjava lá pela frente da casa.

[...] Por aqui já apareceu de tudo, sabe? Desde aventureiros querendo um bom casamento, a estelionatários querendo levar o povo no conto do vigário, mas a gente daqui era cabreira, ficava sempre de orelha em pé e olhos bem abertos, mas é claro que de vez em quando apareciam alguns profissionais do ramo da ladroagem, esses sim eram bons no que faziam, eram peritos formados nas falcatruas, convenciam até o Papa a dar a extrema unção, mesmo estando muito bem de saúde. Judas, o bíblico, era fichinha perto deles. Deixavam suas vítimas lisas que nem muçum e depois sumiam na braquiária.

[...] Se a criança aparecia com o peito aberto, cobreiro, dores inexplicáveis, impingem, mal-estar, sintomas incompreensíveis, já sabíamos o remédio, “benzeção” nela, dos pés á cabeça. Naquele tempo era bem fácil de se encontrar um benzedor dando sopa por aí. Não sei como se organizavam, se combinavam entre si, mas em cada bairro havia um. Atendiam a comunidade em suas casas, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais céticos aos mais fiéis, ou, a depender da gravidade do quadro, iam ao encontro de quem os chamava. Conversavam, aconselhavam, riam, brincavam e benziam, e como benziam.

[...] Aquela casa antiga ali ó, aquela da esquerda, a toda cheia de detalhes, tá vendo? Então, era mal assombrada. Alguns inclusive tinham medo de passar na frente dela, ou trocavam de calçada, ou benziam o corpo antes de cruzá-la. De um dia para o outro, assim do nada, nenhuma louça da casa passou a restar inteira. Copos, xícaras, pires e pratos, tudo se quebrava. E não adiantava refazer o estoque, pois era só comprar coisas novas, que, na manhã seguinte, tudo já estava em frangalhos. O chão ficava forrado de pedacinhos, um mundaréu de cacos. Ninguém sabia explicar ao certo quem seria o autor ou a autora da obra. Só especulavam mesmo. Coisa de alma penada? Traquinagem

de gente viva? Coisa do Tinhoso? Suposições as pessoas tinham, muitas inclusive, mas nada muito conclusivo. Mistério.

Foi bem assim que me contaram.

Ruídos da cidade? Não, sopros e sussurros do que ainda carregamos.

Falar sobre o desenvolvimento da cidade, à luz de uma perspectiva não predatória, incumbência que já estamos destrinchando há dois atos, é também falar sobre a preservação da memória.

Faço essa consideração, não apenas a título de provocação, mas também como um alerta. Um alerta necessário, a fim de que não nos esqueçamos de que quando o espaço urbano está em discussão, não podemos, simploriamente, passar a régua, fechar a conta, de modo a dar a mesma resposta a todas as complexidades e perplexidades que nele aparecem. A cidade, nesse sentido, deve ser examinada, tentando-se abarcar – ouvir, debater, dialogar, compartilhar – a variedade que a forma, as narrativas que a constroem, a oralidade tradicional que a colore, os causos que a animam, os aromas e os sotaques que a fazem pulsar.

Como um mantra, volto a repetir, desenvolvimento não se alcança só pela conquista do asfalto ou do concreto, há outras conquistas a serem alcançadas. Conquistas de ordem social, humana e cultural, conquistas que falem sobre nós, que falem sobre o nosso suor, sobre as nossas lutas, sobre o que somos, sobre nossas vocações, sobre nossas potencialidades, sobre nossas capacidades, sobre o que produzimos e sobre o conhecimento que propagamos ou que podemos ainda propagar.

Por certo que o asfalto das ruas e avenidas e o concreto das edificações, quando de suas corretas destinações ao público, são recursos interessantes, que melhoram a qualidade de vida das pessoas, não sou hipócrita ao ponto de não reconhecê-los, mas não são o único caminho, há mais por se fazer, mais elementos a se observar e mais estímulos por incentivar, há elementos que fogem à matéria propriamente dita, são imateriais, o que é o caso da memória, por isso da necessidade de também preservá-la e cultuá-la no processo, pois senão, mais uma vez, estaremos reproduzindo um desenvolvimento que atropela, que sufoca, que vende bonanças, riquezas e maravilhas, mas cobra esquecimentos, consumos exagerados, devastações e marginalizações – em mais um paralelo, para não perder o costume, é como se nós nos

preocupássemos em construir milhares de escolas e bibliotecas, mas deixássemos de lado o conteúdo humano desse desafio: o desenho das estratégias para o alcance de novos leitores, e a reconquista dos antigos, a qualificação dos professores e demais envolvidos com a causa e a preocupação com a qualidade das atividades a serem realizadas nesses locais, por exemplo.

Serei um pouco radical, porque sim, às vezes é preciso chutar o balde, é o jeito, olha só, desenvolvimento que despreza a memória é fraude, e não pequena, é fraude das grandes. É das grandes, porque reduz as pessoas – crianças, jovens, e, principalmente, as gerações mais antigas – a um papel secundário, esvaziado, sem projeção, jogando para o descarte protagonismos já vividos, e desestabilizando, por consequência, possíveis protagonismos vindouros.

A memória da cidade é elemento constituinte da cidadania de seus habitantes. E ó, não estou divagando ao afirmar isso não. É elemento constituinte da cidadania, porque não permite que nós nos convertamos em uma massa neutra, impessoal, sem identidade e referências, perdida em nossas próprias ambições e promessas, desgarrada de nossas lutas e enfrentamentos históricos contra injustiças das mais diversas naturezas. E vou além, é justamente a memória da cidade que fortalece nossos laços de pertencimento ao espaço que ocupamos, e o melhor, auxilia-nos a rever passos não tão acertados antes dados, bem como a nos reinventar ao longo dos anos.

A memória não deve passar, deve ficar, deve permanecer, deve transbordar. Desenvolvimento sem memória é lorota!

José Ricardo Menacho: Professor do Curso de Direito (Unemat/Cáceres), Autor do livro “O Plural do diverso”.




fonte: José Ricardo Menacho



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